As abomináveis ditaduras
Tenho certa dificuldade com a teoria desprovida da prática, da experiência. Quando rejeito uma ditadura, seja ela de direita ou de esquerda, parto do ensinamento que a vida me deu e me dá.
Vivi dos 6 aos 28 anos dentro da ditadura militar que se impôs no Brasil. E ela não passou ao largo. Chutou a porta da casa da minha família e se instalou. Meu pai foi um preso político, mas não foi somente ele que as medidas de exceção atingiram. Foi toda a família (meu pai, minha mãe, eu e minhas irmãs). Se a ele impuseram um silêncio, nós também fomos impedidas de expressar livremente nosso pensamento. Nós também ficamos amordaçadas. Se ele era vigiado, nós também fomos cerceadas. Se ele foi processado injustamente várias vezes, nós também fomos punidas. E isso não é força de expressão. É realidade!
Mesmo depois de 1985, quando teoricamente a ditadura foi extinta, seus rastros continuaram marcando o tapete da sala, do quarto, de todos os cômodos da casa.
Comecei a ser alfabetizada exatamente em 1964, quando os tanques do Exército rumaram de Minas Gerais em direção ao estado onde se situava a Cidade Vermelha. Em outras palavras, Santos. Vermelha, porque aqui estavam os sindicatos considerados mais fortes do País, acusados de receber subvenção soviética, e a intelectualidade que se alimentava das idéias de Fidel e procedentes de Moscou.
Cresci ouvindo meu pai, um desses sindicalistas de Santos, falar com admiração de Fidel Castro, da União Soviética, e encarar como inimigos a política e os costumes ditados pelos Estados Unidos. Meu pai nunca disse que era comunista ou socialista, mas tudo levava a crer que pelo menos era simpatizante.
O mundo vivia essa dicotomia: URSS versus EUA.
Cuba era a própria Utopia, ilha imaginada pelo inglês Thomas Morus, para criticar acidamente o regime feudal que vigorava na Inglaterra do século XVI e que acabou condenando-o à morte por decapitação.
Por anos, mantive pelo regime cubano, pela figura de Fidel, a mesma simpatia que herdei de meu pai.
Só que a gente cresce e começa a pensar pela própria cabeça, a analisar e a fazer correlações. Assim como meu pai e toda a minha família, participei dos movimentos sociais contra a ditadura em vigor no Brasil. Aprendi a não aceitar as imposições, a censura, a tortura, a redução dos direitos civis. Até hoje, quem quiser angariar a minha antipatia e se tornar meu inimigo é só me mandar calar a boca, é só me impedir de expressar meu pensamento. Considero isso uma clara conseqüência do que a ditadura fez com minha família e com este País.
Uma forma que encontrei de vomitar todo esse peso foi escrever. Daí, surgiu o livro ‘‘Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós’’. Ele inclusive me ajudou a superar uma doença, desenvolvida a partir dos traumas emocionais e que a medicina considera incurável. Depois da publicação desse livro, nunca mais precisei de remédio e a doença sumiu, contrariando as previsões médicas.
Se a imposição do silêncio e o cerceamento da liberdade me fizeram tão mal, e um meio de expressão, como um livro, me ajudou a superar esse mal, como posso concordar com um regime que não permite que as pessoas discordem dele? Seria uma conivência com o que a ditadura militar fez a minha família, a este País. Eu seria a personificação da incoerência.
A democracia é imperfeita, assim como o ser humano. Mas quem disse que ditadura é perfeita? Só quem não viveu de perto uma e não sofreu as suas conseqüências é que pode dizer um absurdo desses.
No filme Dr. Jivago, há uma cena em que o médico foge para o campo, depois de ter sua casa na cidade desapropriada pelos bolcheviques durante a revolução de 1917. Mas, um dia, os bolcheviques chegam à sua propriedade rural e Jivago está escrevendo um poema lírico. Ele acaba preso, porque o poema é considerado uma ameaça aos ideais da revolução. Foi uma das cenas que mais me tocaram.
Quando o golpe militar se instalou no Brasil e meu pai foi preso, minha mãe e amigos da família enterraram livros dele, para que ele não fosse incriminado ainda mais.
Essas situações não me foram contadas. Eu acompanhei de perto, assim como inúmeras outras. E tinha 6 anos de idade. E sabia de tudo o que acontecia. Ninguém consegue esconder de uma criança que seu pai está preso, principalmente quando ela vai até a prisão para vê-lo. Não é difícil para uma criança entender o que é preso político, já que seu pai não é ladrão, nem assassino e vive expressando seu pensamento sobre a situação política do sindicato, da cidade, do país, de outros países.
Quando se cresce num ambiente em que se respira política, aprende-se no cotidiano. Não é preciso ficar adulto para começar a entender.
Muita gente no Brasil teve a vida destruída por causa de seus ideais socialistas. Muita gente morreu. Em Cuba, muita gente também foi, e é, perseguida por ser contrária ao regime de Fidel. Muita gente também morreu. Qual é a diferença?
Fidel Castro foi um líder, mas se transformou em um ditador. Do contrário, teria permitido que o povo escolhesse seu próprio rumo. Por que uma tutela eterna?
Bem cantam os Titãs: ‘‘A gente não quer só comida’’.
Melhor ainda é a síntese de Ernesto Sábato, que cito como epígrafe em meu livro: ‘‘Não há ditaduras más e outras benéficas, todas são igualmente abomináveis’’.
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