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Meus artigos
E se fosse comigo?
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(Foto de Lídia Maria de Melo)
Numa madrugada da semana passada, quando voltava para casa depois do trabalho, avistei uma bicicleta presa a um poste de iluminação por uma corrente com cadeado. Estava numa esquina do Centro de Santos. Chovia torrencialmente e, naquela área, não havia ninguém na rua além de mim. Por sorte, estava protegida pela couraça de meu automóvel com vidro filmado. (Não sei por que a gente tem essa ilusão de que o vidro escurecido nos põe a salvo!)
Por onde andaria o dono daquela bicicleta? O que o teria feito abandonar seu veículo naquela calçada? Teria sido a chuva? Ou será que algo de ruim tinha acontecido? Não sei por que me preocupar com uma pessoa que não conheço nem de vista!
Sou assim. E não foi curiosidade o que senti. Foi preocupação mesmo. Como deve ser triste esperar por alguém em casa e esse alguém não chegar e nem dar notícias!
Numa manhã, no final da década de 90, eu andava na praia e testemunhei a morte repentina de um atleta. Ventava muito e estava nublado. A areia fina se impregnava aflitivamente entre os dentes. A praia era um deserto.
Desci à faixa de areia na altura do Canal 3, na fronteira do Gonzaga com o Boqueirão. Podia contar as pessoas que caminhavam ou corriam no sentido José Menino/Ponta da Praia. Se havia dez pessoas em toda a extensão da praia era muito. Decidi ir também no sentido Ponta da Praia, apesar do vento contrário, que fazia meus olhos lacrimejarem.
Poucos minutos depois, olhei para trás, em direção ao José Menino, e avistei um pequeno círculo de pessoas. Percebi que algo acabara de acontecer. Voltei. E, antes que eu alcançasse o local, uma viatura do Corpo de Bombeiros chegou. Dois bombeiros desceram, observaram e apanharam um pano branco. Testemunhei quando cobriram o corpo de um homem que vestia shorts de atleta, tinha pernas musculosas e calçava tênis. Era alguém que estava correndo e de repente caiu sem vida na areia. Pela musculatura, dava para saber que se tratava de um esportista. Pedi para ver seu rosto. Poderia conhecê-lo. E isso seria importante, porque ele não portava documentos. Não reconheci suas fisionomias, mas identifiquei o boné. Era um atleta de Cristo.
Corri até um orelhão (para quem não se lembra, telefone público) e disquei a cobrar para casa. Pedi a minha irmã, uma triatleta, que telefonasse ao casal que coordenava um grupo intitulado Equipe 100. Marido e mulher eram pedestrianistas e tinham o cadastro de inúmeros corredores da Cidade. Com sorte, eles poderiam identificá-lo e, quem sabe, avisar a família. Estava aflita com a possibilidade de que alguém o estivesse esperando em casa, já que ele só carregava uma chave.
Avisado, o casal compareceu à praia, assim como minha irmã. O atleta tinha 35 anos e era um maratonista que havia acabado de participar de uma competição em Santa Catarina. Viúvo, morava com a mãe e a única filha de 9 anos. A menina estava em casa, com coleguinhas de escola, aguardando que o pai retornasse, para ajudá-los em um trabalho de escola. Foi muito difícil dar a notícia para a família.
Na verdade, foi feito o contato com uma vizinha que providenciou o telefone da irmã casada do rapaz, para que ela avisasse a mãe e a sobrinha. Ao mesmo tempo, nos plantamos na porta do prédio, para não deixar que outras crianças, colegas de classe da filha do atleta, entrassem. Não haveria mais trabalho. Pelo menos naquele dia.
Não me lembro do nome completo dele, mas sei que o prenome era Ubiratan. Quando pisei a areia da praia naquele dia, ele ainda devia estar correndo em direção ao bairro em que morava. Minutos depois, ele jazia inerte. Mesmo sem poder tê-lo ajudado naquela hora final, senti um alívio por estar ali e ter tomado a iniciativa de procurar alguém que pudesse identificá-lo. Consegui evitar que ele fosse levado ao Instituto Médico Legal como indigente e que a família tivesse que peregrinar até obter alguma informação sobre seu paradeiro. Naturalmente, isso levaria horas ou até dias.
Fiz por ele e por sua família apenas o que eu gostaria que fizessem por mim e pelos meus.
Quando a gente se põe no lugar do outro, dá para sentir sua dor. Essa identificação nos faz tomar iniciativas.
Atenção: É proibida a reprodução dos textos e das fotos deste blog em qualquer meio de comunicação, impresso ou escrito, sem autorização da jornalista Lídia Maria de Melo. Esta advertência está amparada pela Lei 9.610, de 19 de fevereiro de 1998
Escrito por Lídia Maria de Melo às 23h02
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Meu feriado particular!
. A flores do jardim do meu AP - Fotos Lídia Maria de Melo

Sempre digo que dia de aniversário é feriado nacional. Hoje é meu feriado! Nunca penso que estou ficando mais velha. Sempre acho que estou mais viva. Talvez seja porque aos 18 anos a morte tenha me rodeado e, por muito tempo, eu tenha enfrentado uma doença considerada incurável. Até hoje a medicina não admite a possibilidade de cura, mas faz tempo que me livrei dela, dos remédios e dos sintomas.
Cheguei há pouco da comemoração das bodas de ouro de tia Neusa e tio João. Lá mesmo eles puxaram os cumprimentos pelo meu dia. Eles nunca se esquecem da data em que vim ao mundo, justamente porque se casaram em um dia vizinho. Deles jamais poderia esconder minha idade. Eles sabem exatamente quantos anos completo ao final de cada doze meses. Ainda bem que não me importo com isso, apesar de toda minha vaidade.
Como ainda não me bateu o sono, aproveitei para entrar no orkut. Recebi várias mensagens de amigos. Todas me deixaram feliz e agradeço por elas. Mas, mesmo sem a autorização do autor, vou transcrever uma que me causa especial sentimento. Foi escrita e enviada por Dirceu Cateck, um amigo que está longe e não vejo há muito tempo, mas que conheço desde que ele era criança e me faz acreditar que muitas coisas na vida valem a pena.
''Cada segundo de vida é precioso. Confesso que, antes, dava mais importância para as datas, tinha todas elas (as mais importantes) guardadas na minha memória. As datas, muitas vezes, são usadas por mim, como referências, para iniciar e terminar etapas. Começar e recomeçar, utilizo como parâmetros do tempo, às vezes até esqueço delas. Existem datas que não podem ser esquecidas, são importantes e, por si mesmas, estão presentes. Não se deixam esquecer, cair no olvido. Essa data, a do seu aniversário, considero importante, porque considero importante todos os aniversários das pessoas que são, para mim, importantes. Por isso, tenho ela aqui registrada, nessa minha cabeça que transborda pensamentos, pensamentos que voam mais rápido que a própria velocidade da luz, deixando sem querer, às vezes, coisas importantes para trás. Mas no dia de hoje, dou um "pause" em toda essa correria, venho aqui correndo, cansado, para te dizer que, fico feliz por ter a oportunidade de te desejar um feliz aniversário.
Gostaria de poder te dar um abraço e te parabenizar pessoalmente. Mas embora a geografia não me favoreça, aproveito, através da tecnologia, fazê-lo. Mesmo que os anos tenham passado e que milhares de quilômetros estejam separando este abraço, quero que saiba que faço votos de muita saúde, paz e tranquilidade, que essa energia você sinta. É verdadeira! Um beijo muito grande e feliz aniversário. Aproveite o dia!''
Obrigada, Dirceu, você é um escritor.
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Escrito por Lídia Maria de Melo às 04h24
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Dona Maria e João Pedro
No início da semana passada, foi a vez de Lourenço Diaféria, aos 75 anos. No final, dona Maria partiu, com seus quase 90. Ontem, João Pedro deixou de sofrer, aos 12.
Como meus avós paternos e maternos morreram cedo e não os conheci, dona Maria foi a idéia mais próxima de avó que eu formei. Não tínhamos laços sangüíneos, porque era mãe de meu tio por consideração (marido de minha tia). De fato, era avó paterna de meus primos maternos. Ela também experimentava esse sentimento de adoção. Sempre tratou a mim e a minhas irmãs com tamanho carinho! Talvez porque nos conhecesse desde o nascimento e tenha convivido conosco durante a infância e parte de toda a nossa vida. Ultimamente nos víamos pouco, porque ela vivia com a família de um filho em uma cidade vizinha. Mas, quando nos encontrava, sempre nos chamava de ''meninas'' e fazia questão de nos afagar delicadamente com um beijo no rosto e um sorriso. Não falávamos muito, mas esse afeto se manifestava em gestos. Não tenho fotos de dona Maria, mas suas feições, que vejo estampadas no rosto de meu tio e no de uma priminha, sua bisneta, sempre estarão gravadas em minha memória.
Já o menino João Pedro, tenho certeza de que foi se encontrar com a mãe, morta precocemente há três anos, de câncer, desenvolvido devido à tristeza de tanto vê-lo sofrer. Ele é uma dessas pessoas que vêm ao mundo apenas para ensinar. Mesmo com todas as privações e dores, causadas pela doença epidermólise bolhosa distrófico-recessiva, ele ainda soube dar esperanças e ser forte. Tornou-se um espírito de luz.
Que sigam em paz!
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Escrito por Lídia Maria de Melo às 14h06
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Os males da intimidade
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A intimidade costuma prejudicar os relacionamentos, ao mesmo tempo que os pode consolidar. Isso parece consenso. Mas tenho uma teoria sobre uma das principais causas desses danos do cotidiano. Existem inúmeros motivos capazes de azedar um relacionamento (seja de que tipo for), mas a falta de gentileza é uma delas. Por intimidade, as pessoas deixam de pedir licença, de agradecer, de cumprimentar, de pedir desculpas... e passam a ser ríspidas, indelicadas, mal-educadas até. Com pessoas estranhas, são usados os bons modos, as melhores louças, as roupas mais elegantes, o sorriso, a simpatia... Para os íntimos, sobra o que se esconde das visitas. Nunca me conformei com esse tipo de conduta, que parece generalizada. Então, proponho que todo mundo se comporte como estranho. Assim, talvez as relações se purifiquem.
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Escrito por Lídia Maria de Melo às 01h24
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Dois Córregos
Acabei de assistir a Dois Córregos _ Verdades Submersas no Tempo, filme escrito e dirigido por Carlos Reichenbach. Foi lançado em 1999. Só encontrei em VHS.
No elenco, Carlos Alberto Riccelli, Ingra Liberato, Beth Goulart, Vanessa Goulart e Luciana Brasil.
Curiosamente, há uma personagem chamada Lídia, que tem uma irmã Lúcia. Só que são filhas de um general linha-dura, cujo nome é sinônimo de terror e tortura no período mais cruel da ditadura militar.
É um filme poético, com bela fotografia e bem musicado por Ivan Lins. Se eu não estivesse com preguiça de escrever, comentaria mais. Mas tenho que dizer que é um filme de grife. Tem uma estética que reflete uma sensibilidade intensa do autor. É um filme de autor. Não conheço outros filmes de Reichenbach, mas, por Dois Córregos, suponho que seja um humanista. Gostei. Quer assistir a uma entrevista do diretor e a uma cena linda do filme? Clique aqui e veja (é do futuro jornalista, escritor e blogueiro Ricardo Prado).
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Escrito por Lídia Maria de Melo às 01h16
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