Raul Soares

 

Para lembrar a funesta chegada do navio Raul Soares ao Porto de Santos há 45 anos, o jornal A Tribuna publicou uma reportagem, assinada por Rafael Motta.

Argeu Anacleto da Silva, ex-preso político do navio deu entrevista. Ele era amigo de meu pai, Iradil Santos Mello. Ambos trabalharam no porto e integraram a diretoria do Sindicato dos Operários Portuários de Santos. Foi ele que me deu a notícia da morte  de minha irmã mais velha na adolescência. Meus pais estavam com ela no hospital em São Paulo.

Escrevi um comentário ao lado do dele. Veja material completo abaixo.

Litoral Paulista, Sexta-Feira, 24 de Abril de 2009 :: 12:39

‘Parecer atestou tortura a presos do ‘Raul Soares‘

 Lídia Maria de Melo

Da Redação

Os presos do navio Raul Soares sofreram tortura ou não? A questão foi debatida com ênfase e dividiu, em 2004, a Comissão Estadual de Ex-Presos Políticos da Secretaria de Estado da Justiça e da Defesa da Cidadania, que analisava pedidos de indenização com base na Lei Estadual 10.726/2001.

Parte da comissão defendia que os presos da embarcação foram torturados e que eles tinham direito a receber indenização do Estado.
 
O restante da comissão negava o reparo financeiro, sob o argumento de que ninguém foi submetido a instrumentos de torturas, como pau de arara, choque elétrico ou métodos semelhantes de perversidade. Diante dessa cisão, os processos dos ex-presos do Raul Soares foram suspensos atéquesechegasse a um consenso sobre o conceito de tortura.
 
Soube desses bastidores em agosto de 2004, quando fui convidada pelo Fórum Permanente de Ex-Presos Políticos para fazer palestra na Secretaria de Estado da Justiça, em São Paulo. Por ter escrito livro sobre o assunto e ser filha de um ex-preso do navio, Iradil Santos Mello, ex-diretor do Sindicato dos Operários Portuários, pediram-me para contar o que vi, quando visitei meu pai no Raul Soares, aos 6 anos de idade, e para falar dos reflexos dessa experiência na vida de minha família.
 
Antes de mim, o médico e advogado Henrique Carlos Gonçalves, atual presidente do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp), expôs seu parecer sobre tortura e como, ao longo da história da humanidade, ela foi e é desenvolvida. Em outras palavras, ele demonstrou que nem sempre é preciso machucar ou mutilar o corpo de uma pessoa, para fazercom que ela quase enlouqueça e até confesse atos que jamais praticou. Seu trabalho convenceu a todos os integrantes da comissão estadual de que o confinamento no navio Raul Soares e o tratamento dispensado lá dentro, de abril a novembro de 1964, foram formas de tortura. Só depois desse parecer, os processos dos ex-presos da embarcação foram avaliados e as indenizações, deferidas.

A JORNALISTA LÍDIA MARIA DE MELO É COORDENADORA DO CADERNO BAIXADA SANTISTA DE A TRIBUNA E AUTORA DO LIVRO RAUL SOARES, UM NAVIO TATUADO EM NÓS

‘Não me arrependo daquilo de passou‘

Argeu Anacleto da Silva

Falam em nome da democracia, usam a democracia como pano de palco, de escudo. A verdade é que continua prevalecendo o domínio imperialista. Parece que está um pouco enfraquecido agora, diante dos abusos, das agressões, das invasões aos países, à soberania dos outros países, pelo interesse de petróleo e outros minérios que existem. Isso não é democracia. É demoniocracia.

O que marcou na época, e ainda marca, (é) uma Cidade que apresentou seu protesto com dignidade, com honestidade e sofreu essas injustiças. Acontece que a sociedade afasta as lideranças honestas,dignas,queatrapalham esse capital, esse domínio imperialista, e picha as criaturas do jeito que quer, de vermelho, decomunista,de agitador,de fascista, enfim, do que eles querem, para justificar o golpe militar que foi dado no País a serviço dos interesses ianques.
 
Recebi auxílio dos meus companheiros de trabalho, que trabalhavam, embora proibidos pelo capitão dos portos, mas eles faziam uma arrecadação, porque até o nosso direito de auxílio-reclusão foi suspenso, foi pago só depois de sete meses. Morreríamos de fome, nossos filhos, em casa, se não tivesse esse amparo e sensibilidade humana dos companheiros.
 
Eu não me queixo de nada porque, graças a Deus, estou com saúde ainda, estou vivendo... E nem estou arrependido daquilo que passou. Faz parte da história da vida, da política, da sociedade, da Cidade, até do País. É que eu sou um et cetera, entendeu? (Risos) Os grandes figurões, eles procuram se sobressair, têm cultura, têm estudo, têm proteções partidárias. O trabalhador não tem nada".

TRECHOS DA ENTREVISTA FEITA ONTEM À TARDE, POR TELEFONE, COM ARGEU ANACLETO DA SILVA, UM DOS PRIMEIROS PRESOS POLÍTICOS LEVADOS PARA O RAUL SOARES

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Há 45 anos, navio-prisão trazia o medo ao Porto


Liberdade ­ essa palavra,/que o sonho humano alimenta:/que não há ninguém que explique,/e ninguém que não entenda!
(Cecília Meireles [1901-1964], em Romanceiro
da Inconfidência, de 1953)


RAFAEL MOTTA

Da Redação

Um golpe de Estado não bastava. Era preciso demonstrar força. A prova veio de navio: 6.003 toneladas, 129,60 metros de comprimento, 14,70 metros de largura. Idade, 64 (ano em que os militares tomaram o poder no Brasil). Mas, que finalidade teria aquela grande e velha embarcação, rebocada do Rio de Janeiro ao Porto de Santos, onde chegou em 24 de abril de 1964?

 
Era o Raul Soares, um navioprisão. Um cárcere flutuante, atracado nas proximidades da Ilha Barnabé, no qual se mantiveram, fortemente vigiados e sob péssimas condições de alimentação, higiene e salubridade, prisioneiros políticos civis e militares. E que serviu como cadeia durante 183 dias, até 23 de outubro daquele ano.
 
Em 2 de novembro -- Dia de Finados --, depois de cumprir sua última tarefa, o navio foi levado de volta ao Rio, onde virou sucata. Morreu. Com ele, levou os restos dos ideais democráticos até então vigentes, de luta por melhores salários e condições de trabalho ao operariado. Sobretudo, o do porto, onde acabaram confinados, exatamente e por exemplo, sindicalistas do meio portuário.
 
Quarenta e cinco anos depois da chegada do Raul Soares, também desaparecem, aos
poucos, os que sobreviveram a essa detenção. Vai se apagando a lembrança de uma época de liberdades restritas e que levou Santos, particularmente, a décadas de estagnação, perda de prestígio político e econômico e de autonomia para a escolha dos próprios governantes. Décadas de silêncio.

O ABANO DO MORCEGO
 Contudo, ainda há vozes daquele tempo. Como a de Argeu Anacleto da Silva, de 79 anos, então conselheiro fiscal do Sindicato dos Operários Portuários de Santos e Região. Argeu Anacleto da Silva era um dos que não aceitavam a nova ordem vigente. Por isso, estava entre os mais de 120 detidos por razões políticas, na região. Até o início de maio, 38 sargentos do Exército e dois dirigentes do Sindicato dos Operários Portuários já ocupavam as "dependências" do Raul Soares, "adaptadas para 600 pessoas, prisioneiros militares e civis", conforme registros da Imprensa.
Discordar da tomada do poder pelos militares significava ser comunista ou subversivo ­ justificativas usadas para as prisões. Onde se encaixava Argeu Anacleto da Silva?
 
"Eu não tinha compromisso com nenhum partido: tinha com meutrabalho, com Deuse com a minha família. E com os bons amigos. Lutei pelo pão de cada dia a mais na mesa dos meus companheiros e, por isso, pagamos caro, porque os empresários (nos) punham nasfichascomoelementossuspeitos ou acusados", relatou o ex-preso político, residente em Guarujá, onde abriu uma loja de materiais elétricos em 1965. Impedido de trabalhar no Porto de Santos, ele foi anistiado em 1981 e aposentado com basenaLeida Anistia de 1979.
 
No mês passado, Argeu Anacleto da Silva recebeu do Governo Estadual, R$ 22 mil como indenização pelo que sofreu a partir de 1964. Foi o "abano do morcego, que morde, sangra, mas, depois, vem abanar a sangria".
 
Histórico
 
Três nomes
Construído em 1900, o navio teve como primeira denominação Cap Verde. Servia ao transporte de imigrantes da Europa à América do Sul. Teve o nome alterado para Madeira em 1922 e, em 1925, passou a se chamar Raul Soares ­ nome de um falecido governador de Minas Gerais. Trouxe a Santos migrantes do Norte e do Nordeste

Três calabouços
Em 1964, o Raul Soares estava sem uso, no Rio de Janeiro, quando foi rebocado a Santos. Tinha três compartimentos: um salão ao lado da caldeira do navio, uma saleta em que presos ficavam com água na altura dos joelhos e um local onde se jogavam as fezes dos detentos. A maioria passou pelas três salas