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Ainda a ditadura militar
Quando ouço alguém comentar que as indenizações pagas a ex-presos políticos são ''aberrações'' ou ''uso indevido do dinheiro público'', tenho reações diversas.
Ou permaneço calada, ou fico indignada por estar, certamente, diante de alguém desinformado ou mal-intencionado ou alienado. Ou tenho vontade de despejar sobre essa pessoa uma série de perguntas, para ver se ela encontrará respostas. Qual é o preço de uma vida humana? Que dinheiro pode pagar perdas familiares, psicológicas, afetivas, profissionais, materiais, todas ao mesmo tempo? Que dinheiro paga anos e anos de humilhação, de invasão à privacidade, de perseguição, de impedimento de se manifestar, de privação de direitos de cidadania e políticos? Que dinheiro paga acusações, prisões e processos injustos? Que dinheiro paga o descumprimento da lei? Que dinheiro paga a imposição de censura? Que dinheiro paga a saúde perdida, a morte de um filho em função da pressão psicológica? Que dinheiro paga a desestruturação de uma família e as marcas que nunca mais se apagam?
Quem não sentiu na pele coisa semelhante ou pior do que tudo isso, ou só tem informações deturpadas do período ainda tão obscuro de nossa recente história, pode responder o que quiser. Mas não tem o direito de aviltar a memória de quem dedicou uma vida inteira para garantir que qualquer pessoa deste país possa dizer o que bem entender (até mesmo bobagens como a de que as indenizações são ''uso indevido de dinheiro público'').
Essas mesmas pessoas aplaudem, ou elogiam as decisões judiciais que, por exemplo, obrigam fabricantes de cigarro a indenizar vítimas de câncer; que condenam infratores a compensar financeiramente vítimas de assédio moral ou sexual, de atropelamento, de fraude, de calúnia, de injúria, de difamação... Se essas decisões podem ser mais do que justas, então, por que as vítimas do Estado, que sofreram tudo isso ao mesmo tempo, não teriam direito a ressarcimento? Aos olhos da lei, da Justiça, elas têm. Assim como todas as vítimas. Por isso, estão sendo indenizadas.
Não posso escrever mais, porque, como sempre, estou na correria. Mas volto a recomendar a leitura de meu livro ''Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós'' e de outros tantos livros sobre o período militar (como Brasil, Nunca Mais), para que possam entender do que estou falando. Leiam também o artigo do jornalista, escritor e ex-preso político Celso Lungaretti sobre o recém-lançado livro a respeito dos desaparecidos políticos, clicando aqui.
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