PARA SEMPRE LOURENÇO DIAFÉRIA
Noite de 16 de setembro de 2008. Lourenço Diaféria morre aos 75 anos em sua casa, em São Paulo. O coração parou de bater. Quando li, na manhã de ontem, me emocionei. Há uma grande coincidência nessa data.
Diaféria, escritor, jornalista, cronista, fez parte de minha vida, mesmo sem saber. Nunca o conheci pessoalmente, mas não perdia uma crônica dele, que era publicada em duas colunas, de alto a baixo, na última página da Folha Ilustrada, caderno da Folha de S. Paulo. Nessa época, eu ainda iniciava a Faculdade de Letras e não sabia nem quando nem se iria fazer a de Jornalismo. Eu era pouco mais que uma adolescente. Tinha 19 anos.
É meu segundo cronista favorito. O primeiro da lista é Rubem Braga, cujos textos eu leio desde o segundo ano do antigo curso primário. Ou seja, desde que tinha 7 anos. Já escrevi sobre isto aqui neste blog.
Um dia, quando eu retornava da escola em que lecionava na Base Aérea de Santos, no Distrito de Vicente de Carvalho (Guarujá), depois de caminhar cerca de 2 Km até o ponto do ônibus que me levaria ao Monte Cabrão, bairro de Santos encravado na Rodovia Piaçaguera/Guarujá (atualmente Cônego Domênico Rangoni), parei numa banca de jornais. Enquanto o ônibus me transportava à escola estadual isolada, onde eu dava aulas à tarde, eu leria a crônica do Diaféria, como de costume. Só que a Folha de S. Paulo havia acabado. Só pude comprar a Folha da Tarde e ler a coluna do Plínio Marcos, que tinha um estilo muito diferente do de Diaféria. Era 1° de setembro de 1977.
Quinze dias depois, em 16 de setembro, o lugar de sua coluna estava em branco, com seu nome no alto. No pé, havia uma Nota da Redação, informando: "A crônica diária de Lourenço Diaféria deixa de ser publicada em virtude de o cronista ter sido detido às 17h de ontem pela Polícia Federal conforme noticiamos na Primeira Página".
Diaféria fora preso e enquadrado na Lei de Segurança Nacional devido à crônica ''Herói. Morto. Nós.'', publicada no dia 1° e considerada pelo Exército ofensiva ao seu patrono, o Duque de Caxias. Esse episódio deu origem ''à mais grave crise que a Folha viveria com o regime militar (1964-85)''. Só naquele momento eu entendi que, no dia 1° de setembro, quando não encontrei a Folha na banca, eu deixara de testemunhar um momento histórico.
Diaféria demorou a voltar a publicar naquele espaço da Folha. Outros escritores se alternavam no lugar: Carlos Drummond de Andrade, Flávio Rangel... Gostava desse último, mas não apreciava as crônicas de Drummond. Até hoje prefiro os poemas dele à prosa. Quando Diaféria retornou, não abordava mais os assuntos que me faziam devorar seus textos. Tinha pisado no freio por causa da censura ao jornal, das ameças de fechamento. Acabou saindo de lá. Ficou um período na TV Globo, em um dos jornais, mas seu estilo era para o jornal impresso e não, para televisão. Só fui ler a crônica que motivou sua prisão anos depois.
A notícia de sua morte foi publicada em todos os sites, em inúmeros blogs, em jornais, revistas e TV. Estou escrevendo até com certo atraso. Só que percebi uma coincidência. Lourenço Diaféria morreu em 16 de setembro, a mesma data, 31 anos depois, em que a Folha de S. Paulo noticiou sua prisão, ocorrida no dia anterior (15 de setembro de 1977). Quem pesquisar a história desse importante jornal do País sempre encontrará o nome desse cronista, escritor e jornalista, que sabia escrever, porque colocava nessa tarefa o coração.
Sinto-me privilegiada por ter tido a chance de ser sua leitora. (Leia mais aqui e ainda aqui).
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