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Meus poemas, contos e fotos
Processo de criação
A criação de um texto está sempre
relacionada a uma história.
A composição do meu poema Tua casa. Teu perfil
não escapou a essa regra.
Em abril de 1990, a editora do Caderno de Reforma
e Decoração, que seria encartado, em formato tablóide,
no jornal A Tribuna, edição de 26 de maio daquele
ano, perguntou-me se eu tinha uma poesia ou prosa
sobre aquele tema.
Para a página 2, verso da capa, ela havia idealizado
a publicação de um texto ilustrado.
Eu não tinha, mas aceitei o desafio de escrever.
À noite, quando cheguei a minha casa, sentei na sala
e imaginei uma pessoa estranha excursionando por ela
e tentando desvendar a personalidade de quem ali morava.
Foi assim que, no dia 24 de abril de 1990,
nasceu o poema que foi publicado como
Tua casa. Tua cara e teve ilustrações do Seri.
Mais tarde, mudei o título. Abaixo, transcrevo-o
em três partes. Só assim ele cabe neste blog.
Lídia Maria de Melo (segue...)
Escrito por Lídia Maria de Melo às 02h53
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Tua casa. Teu perfil
(Parte 1)
Num cochilo do porteiro
roubo a chave do quadro
pé ante pé sorrateiro
galgo ao terceiro andar.
Um giro na fechadura
um outro, na maçaneta
correr de olhos ligeiros
o teu mundo se revela
Na gravura de Ouro Preto
o mistério de teus gestos
a elegância de teu porte
requinte de beija-flor.
A mistura de estilos
deslizando pelos cantos
entre versos de Pessoa
e enredos de Piñon.
Prato inglês de porcelana
tons de branco e marrom.
Chapéu de corte exótico
sombreando teu olhar
(continua...)
Escrito por Lídia Maria de Melo às 02h11
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Tua casa. Teu perfil
(Parte 2)
siamês. E o sorriso
bronzeado no retrato.
Moldura de madrepérola
no piano. A janela.
Surpreendo a pulseira
jade e prata displicentes
sobre a mesa de madeira
brilhando cera-jasmim.
Os teus modos sacrossantos,
face e cabelos ciganos
estampados na escultura
mulher de pedra-sabão.
O videocassete preto
guardando Cármen, de Saura.
Recostado na estante
o Bolero, de Ravel.
Nunca te vi dançar
tango, lambada ou tuíste,
mas a cozinha me mostra
teu bailado, teu tempero.
(continua...)
Escrito por Lídia Maria de Melo às 02h01
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Tua casa. Teu perfil
(Última parte)
o teu cheiro no banheiro
xampu, perfume indiano
a bota de couro cru
no tapete macramê.
A cortina entreaberta
o vestido de flanela
a cadeira de balanço
almofadas pelo chão.
Um mosaico de segredos
nos teus passos de gazela
nos detalhes, nas paredes
tua cara, teu perfil.
Pelas frestas entram raios
arco-íris, tons vermelhos
teus desejos espalhados
num pedaço de espelho.
(Lídia Maria de Melo - 24/4/1990)
Escrito por Lídia Maria de Melo às 01h58
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ENTREGA
No dia em que me apaixonei
pelo violão
aprendi a tocar.
A paixão é meu alimento.
Quando ouvi de você : “eu te amo”,
permiti que me tocasse.
Meu corpo é sagrado.
O amor é minha religião.
(Lídia Maria de Melo - 1984)
Escrito por Lídia Maria de Melo às 03h32
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Pelo deleite do ócio, por conta de uma ousadia - parte 1
Lídia Maria de Melo
Aos 80 anos, para mais nada era cedo.
Saiu do elevador sorrateiro, ignorando o chamado da nora pelo interfone e sem cumprimentar o zelador. Assim evitaria indagações. Estava cansado dos cuidados e da histeria dela no controle da casa, do filho com os canhotos dos cheques e dos netos pelo computador. Queria comer tranquilo sua feijoada, tradição sabatina de quem não perdera o gosto pela vida e seus temperos. Tinha urgência desses prazeres. Já vivia seu futuro.
E foi pensando nisso que alcançou o calçadão da praia, antes de escolher o restaurante onde iria almoçar. Com a nova estação, os chapéus-de-sol já estavam desnudos e a folhagem formava um tapete para o vaivém indiferente de rapazes e moças. No seu tempo, melhor dizendo, na sua juventude, porque seu tempo era agora, só os pedestrianistas gastavam energia correndo pra lá e pra cá. Agora era uma febre, mas não deixava de ver beleza naquela coreografia de corpos exuberantes.
(continua...)
Escrito por Lídia Maria de Melo às 13h54
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Pelo deleite do ócio, por conta de uma ousadia - parte 2
Quando chegou à cidade, 65 anos atrás, pensou que seus canais revestidos fossem córregos domesticados pela artimanha de algum desvairado. Depois descobriu a finalidade sanitária daqueles drenos fincados no solo encharcado e aplaudiu. Agora andavam querendo cobrir esse íntimo artifício geográfico, para criar bolsões de estacionamento. Coisa de gente sem história e sem preocupação com a saúde pública. Fossem buscar solução para os arranha-céus recalcados na orla da praia. Essa providência traria benefício maior à população e à arquitetura.
Continuou andando sem rumo, apenas pelo deleite do ócio. O filho, a nora e os meninos deveriam desfrutar dessa preguiça, decerto economizariam o tanto que gastam para combater o estresse. Nisso ouviu um chamado do outro lado da rua. Acenou sem mostrar disposição de parar. Era o amigo psiquiatra, que ganhou notoriedade ajudando almas atormentadas da alta roda, mas não vencia a frustração de jamais ter conseguido libertar o filho e a filha de sua jurisdição, como ele mesmo costumava dizer. A moça, que já nem merecia ser assim chamada, pois já passava dos 50, ainda pedia permissão para sair à noite. O rapaz, um pouco mais novo, casou, era pai de filhos, mas nunca montou casa própria. Ainda ocupava cômodos da mansão do pai. “Casa de ferreiro, espeto de vara bem fraquinha”.
(continua...)
Escrito por Lídia Maria de Melo às 13h53
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Pelo deleite do ócio, por conta de uma ousadia - parte 3
Pouco antes de entrar no restaurante, vasculhou a memória na intenção de encontrar o nome do amigo psiquiatra. Estava na ponta da língua, mas não desgrudava. Sentou-se, pediu ao garçom uma caipirinha de pinga e a feijoada. Do início ao fim do almoço, fez novos esforços, mas só se recordou de Nico Fidenco, o porco criado pelo pai nos fundos do quintal de casa e lavado todos os dias para não cheirar mal.
Foi com Nico que começara a duvidar, aos 10 anos, da teoria de que os bichos eram irracionais. Irracionais eram o filho, a nora, os netos e todos os que desperdiçavam aquela portentosa tarde de sol, confinados em apartamentos diante de um computador. Nico atendia aos seus chamados e respondia às suas falas, grunhindo demoradamente. Sabia que haviam estabelecido um meio de comunicação. Só se sentia frustrado por não ser capaz de decifrar o que o amigo de estimação lhe transmitia.
Já adulto, um cão ajudou-o a reforçar a convicção de que os bichos também raciocinavam. De dentro de um ônibus parado, acompanhou a primeira tentativa que o animal fez para pular um muro. Como não conseguiu, ele tomou distância, observou, como se calculasse, e arriscou novo salto. Diante de outro fracasso, ele se afastou mais ainda e pulou, aí sim, na altura desejada. Se aquela sequência de ensaios e erros não expressava uma espécie de raciocínio, não sabia mais o que era pensar. Como somente os cientistas tinham autoridade para ditar conceitos dessa natureza, jamais polemizou sobre o assunto. Mas consigo mesmo preferia seguir a intuição.
(continua...)
Escrito por Lídia Maria de Melo às 13h51
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Pelo deleite do ócio, por conta de uma ousadia - parte 4
Despreocupou-se do nome do amigo. A lembrança não alteraria o curso daquela tarde. Após pagar a conta, resolveu retornar por umas ruas internas que ele conhecia de tantos e tantos anos. Entrou na farmácia da esquina onde costumava se reunir com a garotada, antes de ganharem os bailes, num tempo que nem o calendário devia mais registrar. Perguntou por Célio. O balconista franziu o cenho, constrangido, e disse não conhecer a pessoa que ele procurava. Não deu o braço a torcer para aquele rapaz ainda imberbe. Decerto era um distraído. Como podia desconhecer que o Célio fora o proprietário daquele estabelecimento por anos e anos e atendera os moradores da Vila Hayden e de outros bairros, quando vinham buscar ajuda na aflição de uma dor de ouvido, de uma gripe insistente, uma inflamação de garganta? Ainda quis perseverar, mas o rapaz já se ocupava de um freguês. Os jovens eram assim mesmo, sem tempo para escutar.
(Continua...)
Escrito por Lídia Maria de Melo às 13h50
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(continuação do post acima)
Pelo deleite do ócio, por conta de uma ousadia - parte 5
As ruas também já não possuíam o aconchego da vizinhança, pensou, seguindo em frente, para um instante depois se surpreender com uma moça de olhos fortes, que caminhava no sentido inverso, mirando-o com firmeza e comentando para a companheira, sem se importar se ele podia ouvir: “Que homem bonito! Imagine quando era novo”. Lisonjeado e encabulado pela atitude que antigamente seria considerada atrevida, por pouco não agradeceu a desconhecida. Havia tempos ninguém o chamava de homem. Perdera a referência de quando passou a ser tratado por idoso, senhor, velho e simplesmente ’vô . Agora, por conta da ousadia daquela jovem, voltava a adquirir o vigor e a dignidade viril. Ainda era um homem. A tarde ganhava mais viço, embora estivesse caindo.
Quando dobrou a esquina de sua rua, nem se incomodou, como era seu costume, com o avanço voraz dos prédios sobre os espaços das casas. A disposição deixava-o mais complacente. E mais sensível também. A ponto de se extasiar perante a cena extemporânea: um vendedor de milho verde apertava com insistência e ritmo a buzina de seu triciclo, fazendo descer crianças de tudo quanto era andar dos edifícios próximos, como numa convocação. Salvatori Tardelli então sorriu pleno: “Como nos tempos das casas!”
A tarde se retirava. O aroma das espigas cozidas afagava-lhe as narinas e a boca se enchia de água. E mais crianças chegavam, rodeando o vendedor. Entre elas, um dos netos. O menorzinho. “Como nos tempos das casas!”, repetiu satisfeito. Quando passou pelo porteiro, cumprimentou-o efusivo, com o sorriso aguçado. Agora, já era noite. E Salvatori Tardelli, um menino.
* (Escrevi este conto em 1997 e publiquei no jornal A Tribuna, de Santos/SP, no dia 27 julho de 1997)
** (Aproveite e leia também o conto Bala Perdida, ganhador do XIX Prêmio Jornalístico de Anistia e Direitos Humanos Vladimir Herzog, categoria Literatura, organizado pela OAB/SP e Sindicato dos Jornalistas. Clique à esquerda no link Meu Conto Bala Perdida, em Outros Links).
Lídia Maria de Melo (limarmello@bol.com.br)
Escrito por Lídia Maria de Melo às 13h49
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MOSAICO
Nunca fez um carinho
com meu nome
como prometeu.
Nem fomos juntos à universidade.
Aquela música da propaganda
o rádio tocou três vezes.
O ônibus sacudia
e eu pensava
no teu jeito de dizer “comigo”
como se o “co” tivesse dois “os”
Às vezes fico calada
e um instante me faz
lembrar tanta coisa...
Quase deixei os poemas de tua vizinha
irem ao chão.
Me pareceu ter sentido teu abraço
na plataforma da rodoviária
e o velho cochicho no ouvido:
_ Saudade d’ocê!
Há sempre espaços
entre os trilhos do trem:
é para os corpos poderem crescer.
(Lídia Maria de Melo - 1984) - limarmello@bol.com.br
Escrito por Lídia Maria de Melo às 13h30
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Roteiro
Aparta do porto um navio.
Apita na vaga da noite
um telegrama pra Lua.
............................................
Publiquei este poema pela primeira vez no
Caderno de Turismo do jornal A Tribuna,
de Santos, SP/Brasil, em 1991.
Escrito por Lídia Maria de Melo às 04h34
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