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BRASIL, Mulher, Música, Livros, Filmes, Jornalista, Professora, Escritora. E-mail: limarmello@bol.com.br



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     Meu livro Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós faz parte do acervo da Library of Congress (Biblioteca do Congresso Norte-Americano)
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     Meu livro Raul Soares, Um Navio tatuado em Nós (registro na Biblioteca Nacional)
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    Meus poemas, contos e fotos



    Processo de criação                                        

    A criação de um texto está sempre  relacionada a uma história.

    A composição do meu poema Tua casa. Teu perfil não escapou a essa regra.

    Ele nasceu no dia 24 de abril de 1990 e foi publicado na página 2 do Caderno de Reforma Tua casa. Tua cara.

    e Decoração, que saiu encartado, em formato tablóide, no jornal A Tribuna, edição de 26 de maio daquele

    ano, com ilustrações do Seri. Naquela  ocasião, denominei-o

    Mais tarde, mudei o título. Abaixo, transcrevo-o

    em três partes. Só assim ele cabe neste blog.

     

    Lídia Maria de Melo (segue...)



    Escrito por Lídia Maria de Melo às 02h53
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                                         Tua casa. Teu perfil

                     (Parte 1)     

     

    Num cochilo do porteiro

    roubo a chave do quadro

    pé ante pé sorrateiro

    galgo ao terceiro andar.

     

    Um giro na fechadura

    um outro, na maçaneta

    correr de olhos ligeiros

    o teu mundo se revela

     

    Na gravura de Ouro Preto

    o mistério de teus gestos

    a elegância de teu porte

    requinte de beija-flor.

     

    A mistura de estilos

    deslizando pelos cantos

    entre versos de Pessoa

    e enredos de Piñon.

     

    Prato inglês de porcelana

    tons de branco e marrom.

    Chapéu de corte exótico

    sombreando teu olhar

                                   (continua...)

                          

     



    Escrito por Lídia Maria de Melo às 02h11
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    Tua casa. Teu perfil

    (Parte 2)

    siamês. E  o sorriso

    bronzeado no retrato.

    Moldura de madrepérola

    no piano. A janela.

     

    Surpreendo a pulseira

    jade e prata displicentes

    sobre a mesa de madeira

    brilhando cera-jasmim.

     

    Os teus modos sacrossantos,

    face e cabelos ciganos

    estampados na escultura

    mulher de pedra-sabão.

     

    O videocassete preto

    guardando Cármen, de Saura.

    Recostado na estante

    o Bolero, de Ravel.

     

    Nunca te vi dançar

    tango,  lambada ou tuíste,

    mas a cozinha me mostra

    teu bailado, teu tempero.

                       (continua...)



    Escrito por Lídia Maria de Melo às 02h01
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    Tua casa. Teu perfil

    (Última parte)

    o teu cheiro no banheiro

    xampu, perfume indiano

    a bota de couro cru

    no tapete macramê.

     

    A cortina entreaberta

    o vestido de flanela

    a cadeira de balanço

    almofadas pelo chão.

     

    Um mosaico de segredos

    nos teus passos de gazela

    nos detalhes, nas paredes

    tua cara, teu perfil.

     

    Pelas frestas entram raios

    arco-íris, tons vermelhos

    teus desejos espalhados

    num pedaço de espelho.

     

                              (Lídia Maria de Melo - 24/4/1990)

     

     

     



    Escrito por Lídia Maria de Melo às 01h58
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    ENTREGA   

    No dia em que me apaixonei

    pelo violão

    aprendi a tocar.

    A paixão é meu alimento.

    Quando ouvi de você : “eu te amo”,

    permiti que me tocasse.

    Meu corpo é sagrado.                                                                

    O amor é minha religião. 

                     (Lídia Maria de Melo - 1984)

                                 



    Escrito por Lídia Maria de Melo às 03h32
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    Pelo deleite do ócio, por conta de uma ousadia - parte 1

                              Lídia Maria de Melo  

         

          Aos 80 anos, para mais nada era cedo.

          Saiu do elevador sorrateiro, ignorando o chamado da nora pelo interfone e sem cumprimentar o zelador. Assim evitaria indagações. Estava cansado dos cuidados e da histeria dela no controle da casa, do filho com os canhotos dos cheques e dos netos pelo computador. Queria comer tranquilo sua feijoada, tradição sabatina de quem não perdera o gosto pela vida e seus temperos. Tinha urgência desses prazeres. Já vivia seu futuro.

          E foi pensando nisso que alcançou o calçadão da praia, antes de escolher o restaurante onde iria almoçar. Com a nova estação, os chapéus-de-sol  já estavam desnudos e a folhagem formava um tapete para o vaivém indiferente de rapazes e moças. No seu tempo, melhor dizendo, na sua juventude, porque seu tempo era agora, só os  pedestrianistas gastavam energia correndo pra lá e pra cá. Agora era uma febre, mas não deixava de ver beleza naquela  coreografia de corpos exuberantes. 

     (continua...)



    Escrito por Lídia Maria de Melo às 13h54
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    Pelo deleite do ócio, por conta de uma ousadia - parte 2

    Quando chegou à cidade, 65 anos atrás, pensou que seus canais revestidos fossem córregos domesticados pela artimanha de algum desvairado. Depois descobriu a finalidade sanitária daqueles drenos fincados no solo  encharcado e aplaudiu. Agora andavam querendo cobrir esse íntimo artifício geográfico, para criar bolsões de estacionamento. Coisa de gente sem história e sem preocupação com a saúde pública. Fossem buscar solução para os arranha-céus recalcados na orla da praia. Essa providência traria benefício maior à população e à arquitetura.

         Continuou andando sem rumo, apenas pelo deleite do ócio. O filho, a nora e os meninos deveriam desfrutar dessa preguiça, decerto economizariam o tanto que gastam para combater o estresse. Nisso ouviu um chamado do outro lado da rua. Acenou sem mostrar disposição de parar. Era o amigo psiquiatra, que ganhou notoriedade ajudando almas atormentadas da alta roda, mas não vencia a frustração de jamais ter conseguido libertar o filho e a filha de sua jurisdição, como ele mesmo costumava dizer. A moça, que  já nem merecia ser assim chamada, pois já passava dos 50, ainda pedia permissão para sair à noite. O rapaz, um pouco mais novo, casou, era pai de filhos, mas nunca montou casa própria. Ainda ocupava cômodos da mansão do pai. “Casa de ferreiro, espeto de vara bem fraquinha”.

    (continua...)



    Escrito por Lídia Maria de Melo às 13h53
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    Pelo deleite do ócio, por conta de uma ousadia - parte 3

         Pouco antes de entrar no restaurante, vasculhou a memória na intenção de encontrar o nome do amigo psiquiatra. Estava na ponta da língua, mas não desgrudava. Sentou-se, pediu ao garçom uma caipirinha de pinga e a  feijoada. Do início ao fim do almoço, fez novos esforços, mas só se recordou de Nico Fidenco, o porco criado pelo pai nos fundos do quintal de casa e lavado todos os dias para não cheirar mal.

          Foi com Nico que começara a duvidar, aos 10 anos, da teoria de que os bichos eram irracionais. Irracionais eram o filho, a nora, os netos e todos os que desperdiçavam aquela portentosa tarde de sol, confinados em apartamentos diante de um computador. Nico atendia aos seus chamados e respondia às suas falas, grunhindo demoradamente. Sabia que haviam estabelecido um meio de comunicação. Só se sentia frustrado por não ser capaz de decifrar o que o amigo de estimação lhe transmitia.

         Já adulto, um cão ajudou-o a reforçar a convicção de que os bichos também raciocinavam. De dentro de um ônibus parado, acompanhou a primeira tentativa que o animal fez para pular um muro. Como não conseguiu, ele tomou distância, observou, como se calculasse, e arriscou novo salto. Diante de outro fracasso, ele se afastou mais ainda e pulou, aí sim, na altura desejada. Se aquela sequência de ensaios e erros não expressava uma  espécie de raciocínio, não sabia mais o que era pensar. Como somente os cientistas tinham autoridade para ditar conceitos dessa natureza, jamais polemizou sobre o assunto. Mas consigo mesmo preferia seguir a intuição.

    (continua...)



    Escrito por Lídia Maria de Melo às 13h51
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    Pelo deleite do ócio, por conta de uma ousadia - parte 4

    Despreocupou-se do nome do amigo. A lembrança não alteraria o curso daquela tarde. Após pagar a conta, resolveu retornar por umas ruas internas que ele conhecia de tantos e tantos anos. Entrou na farmácia da esquina onde costumava se reunir com a garotada, antes de ganharem os bailes, num tempo que nem o calendário devia mais registrar. Perguntou por  Célio. O balconista franziu o cenho, constrangido, e disse não conhecer a pessoa que ele procurava. Não deu o braço a torcer para aquele rapaz ainda imberbe. Decerto era um distraído. Como podia desconhecer que o Célio fora o proprietário daquele estabelecimento por anos e anos e atendera os moradores da Vila Hayden e de outros bairros, quando vinham buscar  ajuda na aflição de uma dor de ouvido, de uma gripe insistente, uma inflamação de garganta? Ainda quis perseverar, mas o rapaz já se ocupava de um freguês. Os jovens eram assim mesmo, sem tempo para escutar.

    (Continua...)

     



    Escrito por Lídia Maria de Melo às 13h50
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    (continuação do post acima)

    Pelo deleite do ócio, por conta de uma ousadia - parte 5

         As ruas também já não possuíam o aconchego da vizinhança, pensou, seguindo em frente, para um instante depois se surpreender com uma moça de olhos fortes, que caminhava no sentido inverso, mirando-o com firmeza e comentando para a companheira, sem se importar se ele podia ouvir: “Que homem bonito! Imagine quando era novo”. Lisonjeado e encabulado pela atitude que antigamente seria considerada atrevida, por pouco não agradeceu a desconhecida. Havia tempos ninguém o chamava de homem. Perdera a referência de quando passou a ser tratado por idoso, senhor, velho e simplesmente ’vô . Agora, por conta da ousadia daquela jovem, voltava a adquirir o vigor e a dignidade viril. Ainda era um homem. A tarde ganhava mais viço, embora estivesse caindo.

         Quando dobrou a esquina de sua rua, nem se incomodou, como era seu costume, com o avanço voraz dos prédios sobre os espaços das casas. A disposição deixava-o mais complacente. E  mais sensível também. A ponto de se extasiar perante a cena extemporânea: um vendedor de milho verde apertava com insistência e ritmo a buzina de seu triciclo, fazendo descer crianças de tudo quanto era andar dos edifícios próximos, como numa convocação. Salvatori Tardelli então sorriu pleno: “Como nos tempos das casas!”

         A tarde se retirava. O aroma das espigas cozidas afagava-lhe as narinas e a boca se enchia de água. E mais crianças chegavam, rodeando o vendedor. Entre elas, um dos netos. O menorzinho. “Como nos tempos das casas!”, repetiu satisfeito. Quando passou pelo porteiro, cumprimentou-o efusivo, com o sorriso aguçado. Agora,  já era noite. E Salvatori Tardelli, um menino.

     

                               

                               * (Escrevi este conto em 1997 e publiquei no jornal A Tribuna, de Santos/SP, no dia  27 julho de 1997)                          

                                ** (Aproveite e leia também o conto Bala Perdida, ganhador do XIX Prêmio Jornalístico de Anistia e Direitos Humanos Vladimir Herzog, categoria Literatura, organizado pela OAB/SP e Sindicato dos Jornalistas. Clique à esquerda no link Meu Conto Bala Perdida, em Outros Links).         

     

                                Lídia Maria de Melo (limarmello@bol.com.br)

     

     

     



    Escrito por Lídia Maria de Melo às 13h49
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                                  MOSAICO

                                      

    Nunca fez um carinho

    com meu nome

    como prometeu.

    Nem fomos juntos à universidade.

    Aquela música da propaganda

    o rádio tocou três vezes.

    O ônibus sacudia

    e eu pensava

    no teu jeito de dizer “comigo”

    como se o “co” tivesse dois “os”

      

    Às vezes fico calada

    e um instante me faz

    lembrar tanta coisa...

      

    Quase deixei os poemas de tua vizinha

    irem ao chão.

    Me pareceu ter sentido teu abraço

    na plataforma da rodoviária

    e o velho cochicho no ouvido:

    _ Saudade d’ocê!

     

     Há sempre espaços

    entre os trilhos do trem:

    é para os corpos poderem crescer.

     

     (Lídia Maria de Melo - 1984) - limarmello@bol.com.br



    Escrito por Lídia Maria de Melo às 13h30
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    Roteiro

    Aparta do porto um navio.

    Apita na vaga da noite

    um telegrama pra Lua.

     ............................................

    Publiquei este poema pela primeira vez no

    Caderno de Turismo do jornal A Tribuna,

    de Santos, SP/Brasil, em 1991.

     



    Escrito por Lídia Maria de Melo às 04h34
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